O Grivo

Cao Guimarães – Exposição Galeria Nara Roesler 2010

22 de setembro de 2014

Entre Miles Davis, Bach, John Cage e o próprio O Grivo, escolhi o primeiro para embalar meu cérebro na direção desta página em branco. Um texto sobre O Grivo escrito em ritmo de jazz! E poderia ser Noel ou Jimi Hendrix ou mesmo, e principalmente, o som ordinário da cachorrada latindo lá embaixo, o rumor vago da eletricidade dos postes de luz, o motorzinho siliciano deste laptop, o tac-tac-tac de meus dedos no teclado. Pois O Grivo é tudo isso e muito mais, o infinito sonoro que nosso ouvido alcança. O que existe para além da música, muito além da ditadura da partitura, o pentagrama estilhaçado em infinitas linhas. Dois cérebros e quatros ouvidos, duas entidades delicadas, duas paralelas complementares, em cujos nomes já estão incorporadas as características de cada um: o Nelson é o neossom, e o Canário é um canário. Como nas escul turas de Amilcar de Castro, O Grivo é uma dobra (um dobrado). Os sons estão todos aí, expostos a um sol sem clave. É preciso proteger a existência de cada partícula sonora para que seu corpo flua límpido em nossos ouvidos. A grivolândia é uma espécie de fábrica de para-sol para partículas sonoras ou uma máquina coletora do ordinário sonoro expressivo esquecido por nós. Antes ou depois do som (ou mesmo dentro dele), existe o silêncio. O Grivo ensinou-me a escutar! Paralelamente à coleta, existe a geração de sons. Traquitanas, geringonças, microfones, radiolas, gravador de rolo, fios de cabelo, gominhas, folhas secas, latas amassadas, fitas magnéticas, sensores infravermelhos, utensílios do mésticos, brinquedos de criança, cemitério de instrumentos, cordas de náilon, crina de cavalo… qualquer coisa que vibre propagando ondas. Para além do ouvido, existe o olho. A grivolândia é também um parque de fantasias para nossos olhos. A precariedade como forma do sublime, a simplicidade (que não é simplista) estampada em cada gesto, em cada pensamento. O som do Grivo é um pensamento que retumba e ecoa na caixa acústica da história. Miles Davis parou de tocar no meu iPod. A cidade adormece lá em baixo… A corda acorda em desacordo com acordes. Ela quer vibrar sozinha, em toda sua essencialidade, debaixo do sol, até que um grivo a grave e a proteja para (e da) eternidade.

Cao Guimarães | 2010

Between Miles Davis, Bach, John Cage and O Grivo itself, I chose the first to inspire my mind towards this blank page. A piece about “O Grivo” written in the rhythm of jazz! And it could have been Noel (Rosa) or Jimmy Hendrix, or even more so the ordinary sound of the dogs barking outside, the hum ming of the street lamps, the silician motor of this laptop, the taptap- tap ping of my fingers on the keyboard. For O Grivo is all that and much more, the acoustic infinity that our ear captures. What exists beyond music, far beyond the dictatorship of the sheet music, the pentagram shattered into infinite lines. Two minds and four ears, two delicate entities, two complementary paral lels, whose names incorporate the characteristics of each one: Nelson is the neo-sound and Canario is a canary. Like in Amilcar de Castro’s sculptures, O Grivo is a fold (a double-fold). The sounds are all there, exposed to a sun without a clef. Each acoustic particle must be protected so that its body flow cleanly to our ears. Griv olândia is a kind of umbrella factory for acoustic particles or a machine that collects the expressive acoustic mundanity that we have forgotten. Before or after the sound (or even within it) there exists silence. O Grivo taught me how to listen! Parallel to the collection there is the sound generation. Rattletraps, con traptions, microphones, old radio sets, reel-to-reel tape recorders, strands of hair, jelly beans, dry leaves, crushed cans, magnetic tapes, infrared sen sors, household appliances, children’s toys, musical instrument graveyard, nylon strings, horse hair… anything that vibrates and emits waves. Beyond the ear there is the eye. Grivolândia is also a fantasy theme park for our eyes to behold. The precarious as a form of the sublime, the simple (that is not simplistic) stamped on each gesture, on each thought. The sound of the Grivo is a thought that booms and echoes in the acoustic box of history. Miles Davis has stopped playing on my ipod. The city sleeps down below… the string awakens in disaccord with the chords. It wants to vibrate alone, in its full essence, under th n disaccord with the chords. It wants to vibrate alone, in its full essence, under.

Cao Guimarães | 2010